Espanha – Conhecendo o coração da Catalunha – Parte I

Catalunya (em destaque no mapa).

A pretexto de visitar a Camila (filha), resolvemos aproveitar o mês de folga para conhecer melhor a Espanha, visitando locais menos explorados pelo “turismo comercial”. Deixamos o roteiro por conta da Camila e ela sugeriu conhecer melhor a Catalunha (por respeito aos Catalães, vou me referir à região com o termo Catalunya), região onde ela está morando.
A Catalunya é uma província da Espanha que responde por 1/5 da economia Espanhola, equivalendo à economia de Portugal. A região tem uma cultura bem distinta do resto da Espanha, adotando seu próprio idioma, o catalão, que é a língua oficial, inclusive adotado nos serviços públicos e nas escolas. Desta forma, a região vive um efervescente movimento de separação da Espanha (isso tem a ver com a forma como a Catalunya foi anexada à Espanha).
Também sugeriu conhecermos os Pirineus, fazendo uma viagem menos convencional (o que descrevo no próximo bloco).

Ao fazer o roteiro (sempre priorizando locais menos explorados e “menos contaminados” pelo turismo comercial), decidimos alugar um carro para conhecer a região mais próxima de Montblanc (incluindo Barcelona) e, em seguida alugar uma “Furgoneta Camper” (van equipada para “morar” nela), com a qual faríamos os locais mais distantes, incluindo os Pirineus, de forma que em qualquer lugar que resolvêssemos parar estaríamos “em casa”.

Feito!

Inicialmente nos hospedaríamos em Montblanc – considerada a cidade medieval mais preservada da Espanha –  de onde estaríamos partindo diariamente para conhecer a região. Dali poderíamos percorrer grande parte da Catalunya, além de eu poder acessar facilmente os pontos de observação de aves da região.

A partir da segunda semana estaríamos dirigindo a Furgoneta rumo aos Pirineus, passando antes pela Costa Brava extremo ocidental da Península Ibérica (cidade de Cadaqués, divisa com a França).

Vamos à viagem:

A sala VIP bancada pelo cartão de crédito ajudou a aliviar as seis horas de espera em Lisboa.

Barcelona – Vista parcial.

Com doze horas de atraso no voo da Tap, chegamos a Barcelona às 2:00 do dia 03/10, assim acabamos ficando em Barcelona próximo ao aeroporto, pois a Autolocadora estava fechada.
Pela manhã, pegamos o carro e aproveitamos para fazer um tour por Barcelona que eu ainda não conhecia, visitando os locais tradicionais, comendo umas tapas e tomando um sorvete muito saboroso (o melhor que já provei).

 

Fonte mágica – Palau Nacional na montanha de Montjuïc – Barcelona.

Sagrada Família – Barcelona. Desenhado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí e em construção a mais de 140 anos.

Sagrada Família – Barcelona. Desenhado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí e em construção a mais de 140 anos.

Montblanc, Tarragona – Espanha – História, lenda e reflexão.

(Cidade onde um guerreiro chamado Jorge passou a ser considerado santo após matar um dragão misterioso que ameaçava o reino local).

Apartamento visto de dentro da muralha (duplex ao centro da foto).

Vista geral da Muralha (lado de fora)

Chegando na pequena cidade medieval com pouco mais de sete mil habitantes, nos instalamos no duplex alugado, bem em frente a uma das portas da muralha medieval (ver foto). Bem em frente ao nosso apartamento (construção restaurada da era medieval), existe uma fonte de água potável onde os habitantes do antigo castelo se abasteciam de água. Também reza a lenda que foi após dar água ao cavalo, nessa fonte, que o soldado Jorge enfrentou o dragão, feito que o transformaria em herói e santo.

Antes do nosso tour pela cidade fomos conhecer o lugar onde a Camila mora, que fica numa área de preservação a pouco mais de meia hora (a pé), do centro da cidade.

Moinho medieval

Deixamos o carro perto da casa (não se pode chegar de carro até lá) e fomos andando pela estradinha que subia por dentro da mata. A região já foi explorada pela agricultura na Idade Média, sendo que logo, no início da trilha nos deparamos com as ruinas medievais de um moinho de trigo que processava a produção local da época. Grandes pés de oliveira também continuam produzindo em meio à mata. E, como disse a Camila, “adelante” vamos subindo que o caminha ainda tem muitas novidades.

Paredões de conglomerado onde é comum a prática de escalada.

Subindo pela encosta do lado oposto do vale com relação à casa, optamos por fazer a nossa primeira trilha, subindo até uma parede de rochas de origem sedimentar (conglomerado) de onde se pode ter uma linda vista da casa que fica do outro lado do vale. Esses penhascos são a área de recreação para os moradores locais que praticam escalada. Mais um pouco e estávamos quase no topo, mas era hora de descer e ir par o outro lado onde estavam nos preparando um saboroso almoço com produtos colhidos no local.

Casa restaurada.

Subindo mais um pouco além da casa…

Mais uma descida e subida e chegamos na casa onde fomos festivamente recebidos pelos moradores, cães, gatos e galinhas. O local é muito agradável, com estrutura sustentável e tratamento de 100% dos resíduos produzidos. Além da lenha produzida através do manejo da floresta, aqui também se utiliza energia e aquecimento solar.

Socalco (terraço) em frente à casa, construído na idade média para cultivo de trigo e oliveiras.

Depois de um almoço revigorante, um descanso (breve) na rede, pois era hora de voltar para conhecer a cidade de Montblanc.

A muralha e o Santo Guerreiro

Falar de Montblanc é falar da muralha. A muralha está muito bem conservada e no caso de restauração, além de muito bem feitas as intervenções estão sempre bem indicadas, de forma que se sabe perfeitamente o que é a construção original e o que foi restaurado.

Em frente a uma das entradas da muralha, a bandeira da Catalunya

Num ponto de vigia do castelo.

À noitinha, os estorninhos se abrigam nas torres da muralha. Já estariam aí na Idade Média.

As ruas da cidade dentro da muralha.

As ruas da cidade dentro da muralha.

Bem aqui, São Jorge teria matado o Dragão (o piso onde estou é original).

Outra vista geral das muralhas (por fora)

Arte medieval em pisos originais decorados com xistos (folhelhos).

Por toda a parte, nas matas e na cidade, oliveiras provavelmente plantadas a mais de 600 anos.

Frutas silvestres diversas como a Viburnum tinus (não comestível)…

Bolota, fruta da família do carvalho (Quercus), nativa das matas europeias e muito utilizada na criação e engorda de porcos.

Medronheiro (Arbutus unedo), fruto ornamental, delicioso e rico em vitaminas. É nativo da Europa Mediterrânica.

A maior parte da cidade está dentro da muralha e passear por ela, visitando os cafés, padarias, igrejas e restaurantes é uma atividade muito prazerosa.  Além disso é possível fazer um passeio ou ronda caminhando sobre as muralhas a exemplo do que faziam os soldados (dentre eles São Jorge) para defender o reino dos perigos externos.

Mosteiro de Montserrat (em catalão, Abadia de Montserra) – Misticismo, meditação e muito fôlego para conhecer bem esta preciosidade da civilização e da natureza.

Chegando no Mosteiro de Montserrat. Construções fenomenais.

Levantamos bem cedo e saímos rumo a Montserrat (85 km de Montblanc pelo caminho mais curto). Já no início da subida, campos de oliveiras, uvas, ameixas e amêndoas e paisagens de “tirar o fôlego”.
Chegar na abadia é como ultrapassar um portal de elevação espiritual, a magnitude das construções e paisagem emocionaria até mesmo uma estátua. Construções fenomenais, um penhasco que se abre aos pés das edificações e fenomenais formações rochosas que se elevam na parte de trás dos prédios onde cabras, inexplicavelmente, caminham em paredes verticais a centenas de metros de altura. Na capela suntuosa, a imagem da Virgem Negra de Montserrat (em catalão, Mare de Déu de Montserrat), que, segundo a história, teria sido construída por São Lucas e levada até o local por São Pedro, nos anos 50.

Na chegada, a magnitude das construções.

 

Um penhasco que se abre aos pés das edificações.

 

Amplos terraços e portais.

Imponência sobre o imenso e profundo vale.

Pássaros estão por toda a parte dos jardins, à beira dos córregos d’agua.

Flores de todas as espécies e formas enfeitam as construções, os jardins e os paredões rochosos.

Depois de visitar a parte interna do “monastério”, como de costume em nossas viagens, fizemos uma trilha de aproximadamente 3h30min subindo as fantásticas formações rochosas que se erguem acima das construções.

A centenas de metros de altura as cabas passeiam, caminhando pelos penhascos quase a pique.

Depois de visitar o mosteiro, uma trilha de 3h 30min para ver tudo aquilo do alto (mais alto).

Parte das construções vistas do alto.

Retornamos da trilha, já com o ambiente totalmente vazio, apenas a tempo de comprar água, um queijo e alguns figos secos na lojinha da hospedaria local e retornamos para a cidade de São Jorge (Montblanc).