Arrozais do Delta do Ebro (sudoeste da província de Tarragona) – Tecnologia, Agricultura sustentável e muitas aves.
Sendo minha primeira viagem à Espanha, além das grandes cidades de Barcelona e Madrid, já bastante conhecidas virtualmente, esperava encontrar, a exemplo do que conheci em Portugal, as pequenas cidades históricas, cercadas pelas regiões agrícolas com campos de oliveira, videiras, amêndoas, dentre outras.
Ao pesquisar locais para observação de aves e descobrir os arrozais, imaginei pequenas plantações a exemplo daquelas encontradas próximo ao litoral de Santa Catarina. Ao traçar o roteiro para o dia seguinte, já me surpreendi com a área do delta do rio Ebro e, mais surpreso ainda fiquei, pela manhã, quando vi se estender à minha frente, extensos campos dourados de arroz maduro.
Seguindo pelas estradinhas (quase todas asfaltadas) por entre a plantação, logo visualizei imensos bandos de aves logo mais à frente, onde uma máquina preparava a resteva recém colhida para deixa-la à espera da próxima semeadura. Agricultura de altíssima tecnologia, numa área de preservação, onde, segundo informações obtidas com os agricultores locais, não se usa qualquer defensivo agrícola ou herbicida, e onde o controle das pragas e ervas daninha é feito exclusivamente pelas aves (locais ou migratórias já que a terra fica “parada” durante o inverno).
As pequenas estradas permitiam apenas a circulação de um veículo por vez, de forma que, ao verificar outro veículo vindo em minha direção, eu procurava um refúgio nas pequenas entradas onde as máquinas acessam as lavouras, parava e aproveitava para fazer alguns registros. Assim o dia passou rápido, apenas com uma parada de menos de uma hora para o almoço em um pequeno restaurante local, onde trabalhadores da agricultura faziam sua refeição e onde talvez tenhamos sido os primeiros estrangeiros a fazer uma refeição no local. Diferindo da maioria dos restaurantes espanhóis, aqui não se serviam frutos do mar, apenas carne suína, carne de “ternera” e salsichas mistas de pura carne feitas no próprio local.
Hora de retornar, satisfeitos com o resultado alcançado, com muitos registros importantes, e com uma ideia diferente sobre a agricultura espanhola e maior respeito pelos métodos de produção e preservação utilizados na Espanha.
Reflexões: – Agricultura sustentável é possível;- Só se conhece bem aquilo que se vive.
La Mussara, Vilaplana, Espanha – Contemplação, mistério, cultura e reflexão.
Alertados sobre os relatos dos mistérios que envolvem o local, saímos cedo para aproveitar ao máximo a nossa visita, de forma que às 8 da manhã de um dia maravilhoso de sol de outono, já havíamos estacionado o carro e percorrido as poucas centenas de metros de trilhas, que um dia foram ruas, para alcançar as ruinas do antigo povoado. A visão é deslumbrante. De um lado as pequenas edificações em ruinas, de outro lado um abismo que se abre aos nossos pés. Abaixo as matas tingidas com as cores amarelo e vermelho do outono e, muito abaixo e ao fundo, Vilaplana, um pequeno povoado com pouco mais de 500 habitantes.
A cidade fantasma, possivelmente de origem sarracena, hoje desabitada, já foi uma potência no passado, com uma igreja (cujas ruinas permanecem bastante conservadas) e que teve seu nome citado numa bula do Papa Celestino III de 1194. Tudo o que se sabe é que até o ano de 1961 (um passado muito recente) ainda era habitada. Ninguém sabe o destino dos moradores, alguns sugerem que foram abduzidos, outros que partiram voluntariamente para “outra dimensão”, teoria sustentada por objetos encontrados na igreja que comprovam indícios de rituais neste sentido. O fato é que “desapareceram” sem deixar vestígios.
Entrando “no clima”:
A fantástica visão que tínhamos à nossa frente, de súbito se modifica. Uma forte neblina começa a inundar o vale e, em poucos minutos, como que vertendo das profundezas, encobre as ruinas da misteriosa cidade.
Quando a neblina impede que se veja qualquer coisa, mesmo a poucos metros à nossa frente, não entro em pânico. Diferente do que esperava, não vejo demônios sobre as paredes das ruinas, não ouço o repicar dos sinos (inexistentes) da igreja, nem tampouco o lamento de almas atormentadas. No silêncio da “escuridão branca” quase se pode ouvir o palpitar de meu coração. Não estou com medo, não espero ser transportado para outra dimensão, apenas me entrego à emoção de estar aí.
Permaneço sentado, à soleira das ruinas que parecem estar aí a contemplar, em seu silencio eterno, as profundezas do abismo que se abre à sua frente, agora escondido sob a densa neblina gelada.
Não tenho a noção de quanto tempo se passou.
Algumas dezenas de minutos ou talvez algumas horas.
Aos poucos a neblina vai se dissipando e agora já se pode ver as ruinas ao nosso redor. Em seguida o vale começa a surgir na branquidão. É tarde. Muitas horas se passaram e é tempo de retornar para casa.
Precisamos deixar aquele lugar mágico. Parto sem respostas sobre outras dimensões e com muito mais dúvidas do que tinha quando ali cheguei.
Reflexão:
Se não levo respostas, La Mussara, veio me falar da fugacidade das coisas. Suas casas, suas ruas, sua igreja, tudo é tão passageiro… Em breve, muito breve, mesmo sem rituais, sem danças satânicas ou sem magia, assim como os moradores deste lugar místico, todos nós estaremos em outra dimensão.













