Pantanal Norte – Fotos, emoções e reflexões!

Liza, Maickel, Leonildo e Orene – Equipe expedicionária

Início da Transpantaneira em próximo à cidade de Poconé.

A convite dos amigos Liza e Maickel de Sinop, programamos “em cima da hora” para aproveitar antes que tudo ficasse muito seco no pantanal.

Onça-pintada (Panthera onca) – Bem de perto!!! – Barão do Melgaço – MT – 2022

O objetivo era, além de observar aves, fazer caminhadas “radicais” e passeios de barco, comer muito e, principalmente ver onças livres na natureza (de preferencia bem de perto).
Sem focar exclusivamente em aves, as belezas do pantanal são tantas que ficamos sem saber no que nos focar.

Árvores floridas – Margens da Transpantaneira.

Cupinzeiros – Margens da transpantaneira

Ponte “67” – muita poeira e terra ressecada.

Assim, no dia 21/07/2022, antes do meio dia, eles nos esperavam no aeroporto de Cuiabá, vestidos para a expedição e ainda com mais quatro camisetas desenhadas pela Lisa e confeccionadas especialmente para esta aventura.
Dormimos em Poconé e no dia 22 saímos bem cedinho. Mesmo antes de sair, avistei e registrei um falcão-peregrino na torre de telefone do hotel, espécie que nunca havia sido registrada no município.
Seguimos pela transpantaneira rumo a Porto Jofre. A despeito da seca, que, segundo os próprios moradores e guias locais, está se mostrando assustadora, a quantidade de animais é inimaginável, especialmente para quem nunca havia estado no pantanal.

Garça-moura (Ardea cocoi)

A paisagem das margens se alternava entre pequenos lagos, com diferentes tipos de aves, muitos jacarés e capivaras, paisagens com árvores floridas de amarelo e pastos cobertos por cupinzeiros que mais pareciam uma paisagem lunar.
Conforme registros históricos, nesta época do ano, a maior parte do pantanal ainda deveria estar coberta de água, porém o que se observa, é muita poeira e pouca água. Sob grande parte das mais de cem pontes que atravessamos de Poconé a Porto Jofre, somente vimos terra ressecada e nenhum animal e, muito menos peixes ou vestígios deles.
Sejamos otimistas e vamos creditar parte da “culpa” ao fenômeno “La Niña” como defendem muitos especialistas, assim não nos sentiremos tão culpados por nossas atitudes ou por nossa negligência. De qualquer forma, vamos adiante, talvez a belezas do Pantanal nos inspirem e nos convençam que vale a pena dedicarmos mais esforços para a preservação.

Tuiuiú (Jabiru mycteria) carregando uma traíra para os filhotes.

Nem bem havíamos “pegado” a transpantaneira e, ao lado da rodovia, em um pequeno lago, dezenas de pássaros, jacarés e capivaras disputavam os peixes aglomerados na rasa poça de água remanescente. Ave bela, serena e de andar calmo. Deixo a imagem para que cada um componha a sua própria impressão.

Tuiuiú (Jabiru mycteria) alimentando os filhotes.

De repente, uma silhueta em uma árvore mais distante roubou a nossa atenção. Um tuiuiú pousava no alto de uma árvore e “descarregava” o papo cheio de peixes já parcialmente “mastigados” no bico de dois filhotes famintos.
A menos de um quilômetro de distância as pontes se sucediam e me parece que foram 115 ou 125 pontes no trajeto. Algumas delas estavam sem condições de suportar os veículos, de forma que, o trânsito estava desviado e tínhamos que atravessar o canal coberto de restos de peixes, caramujos vazios e terra estorricada pelo sol e pela falta de chuvas. Em outros casos, mesmo sem condições de suportar os veículos, as pontes os suportavam. Nestes casos balançavam sob o peso do carro como uma cadeira estragada balança sob o peso repentino de um “sentante”.

Martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona) – “Espetinho” sobre a ponte.

A cada ponte, muitas surpresas:
– Será que na próxima vai dar pra passar?
– Será que vai ter água?
– Que espécies de animais vamos encontrar?

O gado não precisa de estradas ou pontes.

Esperando que o gado resolvesse sair da estrada.

Além das pontes, também fizemos algumas paradas extras em locais que julgávamos bom para fazer algumas fotos e em outros onde as circunstâncias locais nos faziam parar, como alguma tropa de gado parada no meio da estrada.

Araçari-castanho (Pteroglossus castanotis) – Já chegando em Porto Jofre

Quase dez horas de muitas fotos, muitas surpresas e muita poeira, chegamos em Porto Jofre, local onde iríamos pernoitar para, no próximo dia fazer um passeio de barco para observação de onças pintadas.

Carcará (Caracara plancus) – Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) e Mutum-de-penacho (Crax fasciolata) – Porto Jofre

Porto Jofre é um pequeno povoado onde acaba a transpantaneira e pertencente ao município de Poconé cidade do início da transpantaneira. Nesta localidade há uma pista de pouso de propriedade do hotel local (pelo óbvio não foi neste hotel que nós iríamos nos hospedar). Se a pousada não tinha o conforto do hotel, as “ventrechas” de pacu que nos serviram no jantar, compensaram qualquer eventual falta de conforto nas instalações.

Mesmo com barco já contratado para a nossa busca pelas onças, como observadores de aves, dormimos preocupados em levantar cedo, apesar de o nosso “piloteiro” garantir que “não adianta sair cedo, porque as onças não levantam cedo e só saem para caçar depois que o sol esquenta”.

Jacutinga-de-garganta-azul (Aburria cumanensis) – Voando de uma margem a outra.

Quando a “equipe” levantou, eu já estava de pé a mais de duas horas e já havia feito um “reconhecimento” das proximidades e feito mais de cem registros de aves.

Às nove horas, embarcamos (literalmente) rumo às onças.

Olhos atentos céu…

Navegamos por aproximadamente 45 minutos, e passamos a explorar os corixos, entrando em cada um deles e navegando até que fosse possível. Sempre atentos à nossa volta, não faltavam emoções com o cenário que nos cercava.

Olhos atentos às margens…

Nas barrancas, nas areias da margem ou atravessando o rio em voo, podíamos observar e registrar aves como tucanos, jacutingas, papagaios, araras, mutuns, garças, etc.

Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) – Presença nas margens…

Aves aquáticas e jacarés também eram frequentes nas margens ou nadando no rio e corixos.

Próximo ao meio dia, sob alerta do barqueiro, todas as atenções se voltaram para a margem onde uma grande onça pintada caminhava por entre o capim alto a uns 40 metros de distância. Ela (ou outra onça) havia caçado um grande jacaré que foi arrastado para fora da água e já exalava um forte cheiro, indicando que havia sido caçado há várias horas (ou dias).

Mesmo manobrando o barco e ancorando próximo do local, os registros fotográficos não foram bons e a onça resolveu deitar para dormir em meio a uma moita fechada, de forma que esperamos que ela saísse por algumas dezenas de minutos e, ao imaginar que ela estivesse bem saciada, acabamos desistindo.

Rumamos para cima e, poucos minutos depois, novamente o barqueiro nos alertou da presença de um felino na outra margem. Desta vez conseguimos ver o bicho em detalhes e fazer boas fotos (foto 01).

Onça-pintada (Panthera onca) – No barranco, caminhando em meio ao capim.

Pelo rádio, o barqueiro alertou outros observadores e logo quase uma dezena de barcos estavam ancorados e, no silêncio da emoção, só se podia ouvir os cliques das câmeras e quase o palpitar do coração daqueles que, com seus binóculos, observavam em detalhes os felinos.

Parada para um “xixi” e, depois almoço no barco

Feitos os registros e passada a emoção inicial, resolvemos subir um corixo para fazer nosso lanche e utilizar um banco de areia próximo à margem, em um lugar seguro (daria para perceber no caso de uma onça se aproximar), para caminhar um pouco e fazer xixi.

Descemos do barco e, a tempo, o piloteiro impediu que eu o amarasse a uma árvore próxima à margem.

– Você está louco!

– Se vier uma onça, quem vai desamarrar o barco?

Por segurança fizemos o lanche dentro do barco, cercado por jacarés que batiam no barco ao se movimentarem na água rasa.

Nem bem terminamos o lanche, nosso barqueiro ligou o barco num impulso “desesperado”.  Pelo rádio havia sido informado que, logo abaixo, uma onça com seus filhotes havia acabado de atravessar o rio. Em poucos minutos estávamos próximos ao local e pudemos ver, bem de perto, as onças andando pela margem.

Conhecedor da região e dos costumes dos animais, nosso barqueiro sugeriu subir um pouco pelo corixo e ancorar próximo a uma árvore caída que as onças costumam frequentar quando estão nas proximidades.

– Bingo!

Em poucos minutos uma onça andava pela barranca do rio e subia no tronco caído.

Olha as onças aí, pertinho! (as duas sobre o tronco)

– Uma?

– Não, duas, vem outra logo atrás!

– Não, são três, está chegando mais uma!

Desta vez elas estavam a menos de dez metros. Estavam ali, livres, fortes, seguras.

Uma onça…

Caso olhassem para nós, o olhar era de indiferença.

Duas onças…

Imagino que, nós humanos, não fazemos parte da dieta alimentar das onças e que elas, devem agir como as crianças, frente a alimentos novos. Devem pensar, “não gosto de comer humanos” e ao se darem conta de que nunca comeram devem pensar, “embora nunca tenha comido não gosto, mesmo assim”.

Uma soneca relaxante sob o olhar dos humanos.

Depois de uma boa cochilada sobre o tronco caído, de súbito, a onça levantou a cabeça e aguçou os sentidos enquanto o capim em meio á água abaixo dela se movimentava.

“Ouvi algo aí em baixo?”

A onça levantou sorrateiramente e caminhou em direção ao local onde o capim se movimentava e, num bote certeiro, pulos na água, onde atrás do capim, não podíamos ver o que acontecia.

“Esse jacarezinho não me escapa!”.

Entendemos logo, quando ela subia o tronco com um pequeno jacaré, de aproximadamente um metro de comprimento que logo foi levado para ser dividido com os filhotes que estavam logo atrás. Lamentavelmente, de onde eu estava, não foi possível registrar a cena. Também nossa intenção era evitar deslocar-se enquanto elas estavam por perto para interferir o mínimo no ambiente.

Satisfeitos com o resultado da expedição, rumamos de volta, com registro de oito onças diferentes avistadas. Um saldo que superou em muito as nossas expectativas que eram de, com sorte, ver uma onça.

Biguá (Nannopterum brasilianum) – Com um “cascudo” espetado

Durante o retorno, ainda registramos outras cenas emocionantes nos rios e corixos que passamos até chegar de volta à pousada.

No outro dia cedo, partimos para a pousada Rio Claro (no meio do caminho de volta) onde ficaríamos por dois dias, descansando, e observando aves nas proximidades.

martim-pescador-da-mata (Chloroceryle inda)

Das aves observadas nas proximidades da pousada, algumas chamam a atenção pela beleza, como o martim-pescador-da-mata e martim-pescador-miúdo,

Periquito-de-cabeça-preta (Aratinga nenday)

periquito da cabeça-preta, mutum-de-penacho

Mutum-de-penacho (Crax fasciolata)

e arara-canindé,

Arara-canindé (Ara ararauna)

ou pela raridade, como o socoí-zigue-zague (este nos fez levantar as quatro horas da manhã para conseguir o registro).

Socoí-zigue-zague (Zebrilus undulatus0 – Um bichinho difícil…

Retornando do pantanal, ainda “sobramos” um dia para passar na Chapada dos Guimarães,

Arara-vermelha (Ara chloropterus) – Chapada dos Guimarães

onde, além de admirar as belezas naturais da paisagem local, fizemos algumas observações de aves e regitros de uns “bichinhos” muito especiais.

Cigarra-do-campo (Neothraupis fasciata) – Chapada dos Guimarães.

Reflexões:

  • Viajar é muito bom porque nos abre horizontes diferentes, nos dá conhecimento e nos permite crescer com o “comparar”;
  • Viajar em lugares mais “selvagens” nos permite refletir sobre nossa essência e nosso papel na natureza;
  • Viajar com amigos nos faz “ficar grandes”. Isso percebemos a cada vez que dizemos “o mundo é pequeno” (e eu corrijo: “O mundo não é pequeno, nós é que estamos ficando grandes”). (Leonildo, julho de 2022).