De onde vem a próxima ameaça?

Pés descalços, bodoque em punho e caminhar matreiro sobre as folhas secas para não alertar a ave. O sucesso estava em saber o momento certo de arremessar a pedra.

Não era uma competição, não existia raiva, não existia pena, nem tampouco arrependimento. Era uma relação de respeito. Respeito pelo animal, respeito pela dádiva da natureza.

pomba-asa-branca (Patagioenas picazuro) – Salesópolis – Junho/2023

Os ninhos, filhotes e jovens eram sagrados e a época de reprodução era época de abstinência.

Em tempos difíceis era o que se tinha para acrescentar proteína (e alguém sabia o que era proteína, naquele contexto?) à polenta.

Tempos difíceis também para a pomba…

Mais de seis décadas e lá vou eu. Passos sorrateiros (agora os pés protegidos pela bota), caminhando cuidadosamente sobre as folhas secas para não alertar a ave.

Ao invés do bodoque, carrego uma câmera em punho. Já não tenho que calcular o momento de disparar porque agora não há o risco da pomba se evadir, caso o “ataque” não seja certeiro. Basta ela não se dar conta da minha aproximação e terei mais e mais cliques até acertar aquele “perfeito”.

Hoje os tempos são outros. A ameaça da morte já não vem dos meninos e suas fundas. Agora são os agrotóxicos que matam em silêncio, os desmatamentos que desabrigam, os animais domésticos que perseguem e destroem ninhos e filhotes, a poluição que contamina e faz adoecer…

Tempos difíceis para a pomba…

(Fotografia feita no Sítio Macuquinho)

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