O fim de uma lenda em um clic (um pouco desfocado…)

Crejoá (Cotinga maculata) – Camacan – BA – Mar/2023.

Horas de espera. Olhos atentos aos cachos de açaí, até onde a vista alcança. Apenas o palpitar forte do coração como um sinal de alerta. A qualquer momento (ou em nenhum) ele poderia aparecer.
De repente, uma flexa escura se projeta para o cacho do açaí e, por alguns segundos, pousa em um ramo próximo. As pernas parecem falhar e o coração quer saltar do peito. O suor que escore pela testa, se mistura as lágrimas que embaçam a visão. As mãos tremem…
Alguns cliques e ele desaparece no cacho ralo fora do alcance da minha visão, colhe dois ou três frutos e, como um relâmpago, some na mata.
Não era apenas o pássaro cobiçado que, caçado pelos índios, tinha o corpo dilacerado para servir os rituais sagrados e as penas arrancadas e usadas como moeda de troca no perverso comércio de escravos, era um ícone sagrado que, por muitos anos desejei ver.
Assim como a saíra apunhalada, mais um enigma estava resolvido, mais um grande símbolo dando sentido às minhas buscas porque, enquanto houver uma lenda, eu sempre encontrarei vida e forças para desvendar. (Agora é procurar a pardela-de-óculos e a rolinha-do-planalto 🤞).

(O crejoá foi registrado em uma fazenda sustentável de cacau no município de Camacan)

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