De onde vem a próxima ameaça?

Pés descalços, bodoque em punho e caminhar matreiro sobre as folhas secas para não alertar a ave. O sucesso estava em saber o momento certo de arremessar a pedra.

Não era uma competição, não existia raiva, não existia pena, nem tampouco arrependimento. Era uma relação de respeito. Respeito pelo animal, respeito pela dádiva da natureza.

pomba-asa-branca (Patagioenas picazuro) – Salesópolis – Junho/2023

Os ninhos, filhotes e jovens eram sagrados e a época de reprodução era época de abstinência.

Em tempos difíceis era o que se tinha para acrescentar proteína (e alguém sabia o que era proteína, naquele contexto?) à polenta.

Tempos difíceis também para a pomba…

Mais de seis décadas e lá vou eu. Passos sorrateiros (agora os pés protegidos pela bota), caminhando cuidadosamente sobre as folhas secas para não alertar a ave.

Ao invés do bodoque, carrego uma câmera em punho. Já não tenho que calcular o momento de disparar porque agora não há o risco da pomba se evadir, caso o “ataque” não seja certeiro. Basta ela não se dar conta da minha aproximação e terei mais e mais cliques até acertar aquele “perfeito”.

Hoje os tempos são outros. A ameaça da morte já não vem dos meninos e suas fundas. Agora são os agrotóxicos que matam em silêncio, os desmatamentos que desabrigam, os animais domésticos que perseguem e destroem ninhos e filhotes, a poluição que contamina e faz adoecer…

Tempos difíceis para a pomba…

(Fotografia feita no Sítio Macuquinho)

Porque não somos uma ameba…

saí-verde (Chlorophanes spiza) – Peruíbe/SP – Julho/2022.

Sem nos determos nas polêmicas hipóteses sobre a origem da vida, vamos pensar na evolução das espécies.

Na medida em que os indivíduos evoluíram em complexidade, formas e cores, novas espécies foram surgindo aos milhares.

Considerando que 99% das espécies que existiram já estão extintas, que as espécies evoluem de acordo com as condições ambientais e que nós humanos surgimos num tempo muito recente e, provavelmente, existiremos como espécie por um tempo ainda mais curto, nos perguntamos:

– Por que fomos privilegiados em fazer parte desta etapa do universo, coexistindo e podendo desfrutar da beleza de milhares de espécies?

Levando em conta o tempo que se passou (no modo que convencionamos medi-lo) desde que surgiu a vida na forma que conhecemos, podemos dizer que a espécie humana irá existir por “um piscar de olhos” e, num período muito curto estaremos extintos como espécie.

– Em breve o saí-verde estará extinto, eu estarei extinto e a humanidade estará extinta!

Por tudo isso, não tem sentido gastar o nosso escasso e tão precioso tempo, com coisas que não nos agradam e nada acrescentam. Precisamos, cada vez mais, aprender a suportar os momentos ruins, porque são breves e logo passam. Da mesma forma, também devemos desfrutar, da melhor maneira possível, dos momentos bons, porque também são muito breves e também passam.

(Registro feito no Hostel Samambaia Azul)

Sob a ótica humana…

saíra-militar (Tangara cyanocephala) – Mongaguá/SP – 07/2022.

Quando nos referimos a um animal “inteligente”, tudo o que fazemos é julgar a capacidade de este executar alguma tarefa que relacionamos à inteligência humana.

Estamos tão bitolados a isso, que não nos passa a possibilidade de existir uma forma de inteligência superior à nossa. Uma inteligência, por exemplo, como a das formigas que, sem fabricar plástico, sem construir automóveis, sem pavimentar estradas ou sem foguetes interplanetários, conseguem viver harmoniosamente em sociedade, gerir e controlar seu próprio lixo e, sobretudo, viver uma vida plena em sua essência.

Saíra-militar, saíra-de-lenço, soldadinho, saíra de gola…

Estamos tão presos ao nosso “universo humano” e aos nossos conceitos, que ao nos depararmos com algo que nos surpreende, pelas cores, pela beleza ou pela harmonia das formas, logo tratamos de relacionar com as coisas do nosso limitado universo.

 

Não seriamos nós, os maragatos, os militares ou os adeptos do lenço vermelho os imitadores da saíra e não o contrário?

Ou alguém de nós ainda acredita que a saíra “se veste” nestas cores pensando em imitar algum humano?

Por vezes tenho ficado parado, por horas a fio, admirando a beleza de um pássaro e agora, pensando na saíra, me dou conta de que jamais vi um pássaro, mesmo que por alguns segundos, admirando a beleza de um humano.

Longe de sermos modelo para os pássaros, para eles, lamentavelmente, somos nada mais do que um predador, a representação da morte e da destruição.

 

(Registro da ave feito no Hostel Mochileiros)

Algumas imagens deixam lembranças por muito tempo…. outras para sempre

Maçarico-do-campo (Bartramia longicauda) – Esteros del Iberá – AR – Tatuada em abr/2023

Maçarico-do-campo (Bartramia longicauda) – Esteros del Iberá – AR – fev/2023

Fugindo do inverno boreal, desde a tundra do Ártico, esse maçarico pode chegar até o extremo Meridional da América do Sul (mais de 15.000 km), voando, às vezes, por dias a fio sem pousar.
Enfileirados nos mourões das cercas nas pradarias da Argentina e Uruguai, passam horas, ou até mesmo o dia todo, sob um sol de mais de 40°C, imóveis, apenas observando…
Embora as centenas (ou até milhares) de registros fotográficos de uma determinada espécie possam ser muito semelhantes, as observações nos remetem a reflexões que dependem de nosso “estado de espírito”, do conhecimento que temos (das espécies e de nós mesmos) e, enfim, do entendimento da nossa relação com o universo.
Certamente este maçarico provocou em mim uma grande reflexão no que diz respeito à minha e escala de prioridades, ao tempo e ao esforço que dedico a cada uma de minhas atividades…
Depois desta grande viagem migratória anual, esta magnífica ave, reserva, ainda, a maior parte do tempo para si, o que deve dar significado à sua existência e que, talvez, nem ela mesma consiga (ou precise) entender…

(Tatuada em meu corpo, para mim, esta imagem se torna imortal – Da expedição a Esteros del Iberá, 2023).

O fim de uma lenda em um clic (um pouco desfocado…)

Crejoá (Cotinga maculata) – Camacan – BA – Mar/2023.

Horas de espera. Olhos atentos aos cachos de açaí, até onde a vista alcança. Apenas o palpitar forte do coração como um sinal de alerta. A qualquer momento (ou em nenhum) ele poderia aparecer.
De repente, uma flexa escura se projeta para o cacho do açaí e, por alguns segundos, pousa em um ramo próximo. As pernas parecem falhar e o coração quer saltar do peito. O suor que escore pela testa, se mistura as lágrimas que embaçam a visão. As mãos tremem…
Alguns cliques e ele desaparece no cacho ralo fora do alcance da minha visão, colhe dois ou três frutos e, como um relâmpago, some na mata.
Não era apenas o pássaro cobiçado que, caçado pelos índios, tinha o corpo dilacerado para servir os rituais sagrados e as penas arrancadas e usadas como moeda de troca no perverso comércio de escravos, era um ícone sagrado que, por muitos anos desejei ver.
Assim como a saíra apunhalada, mais um enigma estava resolvido, mais um grande símbolo dando sentido às minhas buscas porque, enquanto houver uma lenda, eu sempre encontrarei vida e forças para desvendar. (Agora é procurar a pardela-de-óculos e a rolinha-do-planalto 🤞).

(O crejoá foi registrado em uma fazenda sustentável de cacau no município de Camacan)

Que pássaro fantástico é esse? (¿Qué pájaro fantástico es este?)

Grifo-comum (Gyps fulvus) – Pirineus espanhóis – out/2022.

A paisagem era deslumbrante, abaixo, as profundezas de um vale coberto pelas matas, aos meus pés um caminho construído por camponeses na Idade Média e ao lado um paredão de rochas que apontam para o alto.
Olho para o céu e vejo um bando de majestosas aves voando em círculo.

– Surreal!

Faço alguns registros e procuro identificar a ave. Um “grifo-comum”.
Comum por quê?
Para mim, elas nada tinham de “comum”. Indivíduos fortes, imponentes, únicos.
Vivendo a quatro horas, bem caminhadas, além de onde se pode chegar de carro pelas estradinhas entre paredões e penhascos, distante dos cafés e restaurantes de Madrid ou de Barcelona, numa região de milhares de hectares de matas e montanhas desabitadas.

Longe da Espanha que eu conhecia, sentado em uma pedra, comendo tapas, como faziam nossos avós, estou conhecendo agora uma Europa mais próxima daquela que eles deixaram para vir “fazer a América”.

Uma ave NADA comum me ajuda a conhecer melhor a Espanha, uma Espanha que o turismo comercial não mostra, enfim, as aves estão me ensinando a conhecer melhor o mundo, um mundo “despido”, um mundo real. As aves estão me ensinando a me conectar com a minha essência e comigo mesmo!

(De nossa fantástica expedição pelos Pirineus Espanhóis e Franceses – Orene, Camila e Leonildo – Out/2022 – Camping, bungalows y hotel Viu ).

Minha primeira tatuagem.

Maçarico-do-campo (Bartramia longicauda) – Esteros del Iberá – AR – fev/2023.

Visitantes, vindos do hemisfério norte, durante o inverno boreal, estes admiráveis desbravadores, fazem o percurso desde a tundra do Ártico e se espalham, principalmente, pelo Uruguai, Paraguai e Argentina.

Alguns indivíduos mais arrojados, chegam a percorrer mais 1.600 km abaixo dos pampas argentinos, chegando até o extremo Meridional da América do Sul o que dá um percurso migratório, em linha reta, de 15.000 km (aproximadamente 15 vezes a distância entre Porto Alegre e São Paulo).

Enfileirados nos mourões dos campos e pradarias da Argentina e Uruguai, passam horas, ou quase o dia todo, sob um sol de mais de 40°C, imóveis, apenas observando…

Trocam a perna de apoio de tempos em tempos, como que para descansar uma delas…

O que estariam observando? Estariam analisando as pessoas que passam, apressadas para dar conta de seus afazeres, ou aquelas que viajam em buscam algum significado para a vida?

O que dizer, então daqueles que avistamos nos campos do Uruguai, campos que se perdem de vista e onde se passam dias ou semanas sem que uma vivalma transite pelo local? E pensar nos tempos em que não existiam cercas, onde ficariam eles empoleirados?

Ou, talvez, estando no limiar da cerca, estariam a dizer que as cercas não tem significado algum para eles, já que passam sobre milhares delas todos os anos?

Foi pensando nos maçaricos que deitei na cama sem conseguir dormir, até que passada a terceira vigília, desisti de “pensar com a cabeça do maçarico” e adormeci pensando na grande lição que aprendi com esta fantástica criatura.

Mesmo fazendo esta viagem anual, consegue viver plenamente, sem atropelos, sem correria e ainda sobra a metade do seu tempo para ficar empoleirado nos mourões, o que deve dar significado à sua vida e que somente ele saberia explicar…

(Foi então que decidi tatuar esta imagem em meu corpo – Observação feita durante a fantástica expedição a Esteros del Iberá – AR – Parque Ibera).

Quem sou eu para julgar?!

quiriquiri (Falco sparverius) predando um tico-tico (Zonotrichia capensis) – Morro Redondo – RS – 12/2022.

Uma cena “forte” de predação, onde um quiri-quiri “arranca” um tico-tico do ninho (qual a diferença de uma possível cena de um sabiá devorando uma minhoca? Apenas conceitos preestabelecidos)…

Na ótica do tico-tico (imaginei enquanto assistia a cena do “crime”):
“Fui arrancado de meu lar. Falhei como mãe (ou pai), na continuidade de minha família, de forma que restaram três embriões em desenvolvimento e que amanhã serão apenas três ovinhos podres a servir de comida para um lagarto. Tudo isso devido à gula de um predador…”

Na visão do quiri-quiri:

Faço qualquer coisa para alimentar meus filhinhos, afinal eu sou o único responsável pela sua sobrevivência e pela continuidade da nossa família…

O que eu vi:

O quiri-quiri caçou o tico-tico que estava no ninho sob uma macega, levou-o para o alto de um galho, de onde tinha uma visão ampla para o caso de ter que se evadir. Depenou ele cuidadosamente e, feito isso, levou para outra árvore mais distante onde, no ninho, seus filhotes aguardavam famintos.

Reflexão:
É muito difícil julgar qualquer acontecimento, especialmente aqueles que envolvem vida e morte, sobretudo quando vemos apenas uma parte dos fatos…

(Fotografia feita no Sítio Flor e Osória – Morro Redondo – RS)

Encontro marcado – Em busca de um significado…

Caboclinho-de-papo-branco (Sporophila palustres) – Rio Grande – 12/2022.

Para chegarmos ao mesmo lugar, eu percorri um pouco mais que 350 km, enquanto ele voou por nada menos do que 3.000 km, vindo, possivelmente, do norte de Tocantins para a região costeira de Rio Grande – RS.

Eu, ansioso, buscava conhecer e registrar mais uma espécie, enquanto ele não dava a menor importância para este encontro. Eu ali era apenas um intruso em sua única “missão” de procriar para preservar a espécie.

Reflexão:

Qual o sentido de estarmos aqui?

Com uma chance de nascer, de um para 10^45.000, certamente, não fomos premiados com a vida apenas para colecionar espécies de aves…

(Meu registro que completou 850 espécies de aves brasileiras observadas – Guiado pelo Raphael Kurz – Aves do Sul).

Hoje acordei com um passarinho verde na minha janela!

periquito-de-cabeça-preta (Aratinga nenday). Pousada Rio Claro – Poconé – MT – 26/07/2022.

– Sorte?

–  Algum presságio?

– Uma mensagem de uma pessoa querida que se foi?

– Um alerta?

Para ser mais exato, o que me acordou foi a algazarra dos periquitos junto à minha janela. Assim que abri os olhos, e avistei esta magnífica ave, logo passei a pensar no significado que esta presença inesperada teria… (é claro que, não sem antes pegar a minha câmera que “dormia” ao meu lado).

Sorte?!
– Sim, muita sorte! Um lifer, ao acordar, assim a poucos metros da janela é muita sorte!

Algum presságio?!
– Certamente! Indicando que seria mais que um dia de muitas aventuras e alegrias…

Uma mensagem de uma pessoa querida que se foi?
– Com certeza! Entendi a mensagem das pessoas queridas que perdi, especialmente minha mãe e meu pai… Através do periquito eles estavam dizendo “filho, olha como a vida é bela”, “não a desperdice com bobagens, ame as pessoas, respeite a natureza, tire o máximo de prazer das pequenas coisas…”

Um alerta?
– Assim que consegui registrar o “lifer”, o bando voou desaparecendo na imensidão do pantanal… O alerta foi para me lembrar que, assim como os momentos tristes da vida passam, os bons momentos também. O segredo é viver intensamente cada momento de nossa vida… O recado estava dado!

(26/07/2022 – Da maravilhosa viagem ao Pantanal Norte, com minha esposa Orene e os queridos amigos Lisa e Maickel)